terça-feira, 20 de julho de 2010

Dica de filme


A Língua das Mariposas

A Língua das mariposas é um filme surpreendente que relata de uma forma brilhante a inocência e as descobertas de um garoto chamado Moncho (Manuel Lozano), filho de um alfaiate com ideais republicanos e uma dona de casa bastante ligada à igreja. Moncho conta com a ajuda de seu professor, Don Gregório, interpretado por (Fernán Gómez), que também acredita nos ideais republicanos, buscando despertar em seus alunos a liberdade, mostrada através da natureza, pela língua das mariposas. O filme retrata uma relação entre professor e aluno que não era muito comum para os anos 30 onde é ambientado; Don Gregório assume uma postura de amigo, usando o diálogo e não castigos físicos, despertando em Moncho o prazer pela leitura, em fim, pelo aprender com o mundo. Apesar de tratar da sensibilidade, o filme do espanhol José Luis Cuerda traz temas fortes, situando sua história em um contexto social prestes a sofrer grandes transformações, por conta do regime de Franco. O desfecho trás uma reflexão, sobre como um momento histórico pode mudar ideais.

Desenvolvimento infantil

A revista Nova Escola postou em seu site uma série de vídeos que falam do desenvolvimento infantil, são bem interessantes. Aqui vai o link: http://revistaescola.abril.com.br/desenvolvimento-infantil/

terça-feira, 20 de abril de 2010

Fala e escrita


São inúmeras as pesquisas realizadas ultimamente sobre a língua falada, vários profissionais como: antropólogos, psicólogos e educadores tem se interessado pelo tema. O objetivo de tanta pesquisa é desmistificar a noção de fala como uma estrutura simples enquanto a escrita é considerada uma estrutura complexa, pois a primeira é vista como primária e a última como secundária, assim a escrita passa a ser um símbolo visual da fala. É na gramática que essa relação de superioridade da escrita em relação à fala se fortalece, pois o parâmetro sempre é a língua escrita. Segundo Marcuschi os gramáticos imaginam a fala como o lugar do erro.
A língua falada foi considerada durante muito tempo como o lugar onde permeava o caos por causa dos elementos pragmáticos presentes em sua constituição, tais como: pausas, vogais, consoantes, ênfases, repetições, entre outros. É através de estudos que o foco vai deixando de se dar no produto e passando a se concentrar no processo, assim a linguagem passa a ser incorporada nas análises textuais e a cada atividade interacional, deixando de ser vista como mera verbalização.
A conversação existirá quando os interlocutores tiverem o mesmo direito, por exemplo, na escolha do tema. Baseado no princípio acima citado toda atividade conversacional possui interatividade, pois envolve os participantes em uma dada situação. Os participantes devem estar atentos aos elementos verbais e não-verbais, pois a situação em que se fala pode afetar a conversação. O modo do discurso é determinado pela interação, sendo mais formal ou menos formal. Apreendemos, então, que a produção de um texto falado é uma atividade social que requer esforço pelo menos dos dois indivíduos envolvidos. Para alcançar esse nível de conhecimento e habilidade é preciso ir além do conhecimento gramatical, é necessário decodificar mensagens isoladas, pois essa modalidade possui certo grau de imprevisibilidade, sendo fácil a observação de muitos cortes, interrupções, retomadas, sobreposições, entre outros.

A FUNÇÃO SOCIAL DA LEITURA


Para construir as competências na escola é preciso perseguir os aspectos que dão sentido à presença dos alunos na escola e ao seu aprendizado. É na medida em que se vive num meio sobre o qual é possível agir, discutir, decidir, realizar, avaliar junto com os outros que são criadas as condições mais favoráveis ao aprendizado.
Há muitos casos em que a pedagogia, na maior parte do tempo, está baseada no ensino, ou seja: a atividade essencial é realizada pelo professor, é ele quem elabora e constrói. Cabe aos alunos entenderem, responderem ou executarem as tarefas. É preciso partir para uma pedagogia baseada no aprendizado, em que os alunos ensinam a si mesmos, construindo seu saber e suas competências com a ajuda de outros.
Dessa forma, não se ensina uma criança a ler: é ela que se ensina a ler com a ajuda de seus professores, colegas, instrumentos da aula, pais e de todos os leitores encontrados. Cada um possui seus próprios processos, suas etapas, seus obstáculos a vencer e a ajuda lhe vem do confronto com as proposições das outras pessoas com quem está trabalhando. Nessa perspectiva, cabe ao professor:
• Fazer com que a vida da aula proporcione às crianças situações de leitura simultaneamente efetivas e muito diversificadas;
• Ajudar os alunos a interrogarem o escrito: procurar um sentido, levantar hipóteses a partir de indícios e verifica-las;
• Ajudar os alunos a elucidar suas próprias estratégias de leitura.
Para desenvolver essas atividades é preciso partir do pressuposto de que LER é:

• Atribuir diretamente um sentido a algo escrito. Diretamente, isto é, sem passar pelo intermédio da decifração ( letra por letra, sílaba por sílaba, palavra por palavra ) nem da oralização ( grupo respiratório por grupo respiratório ).
• Questionar algo escrito como tal a partir de uma expectativa real ( necessidade-prazer ) em uma verdadeira situação de vida. Questionar um texto é fazer hipóteses de sentido a partir de indícios levantados e verificar essas hipóteses. Tal questionamento se desenvolve através de toda uma estratégia de leitura que nada tem a ver com uma decifração linear e regular ( que parte da primeira palavra da primeira linha para chegar à última palavra da última linha ). Essas estratégias podem variar de um leitor para outro, de um texto para outro e, para um mesmo leitor e um mesmo texto, de um objetivo para outro.
• Por fim, ler é ler escritos reais, que vão desde um nome de rua numa placa até um livro, passando por um cartaz, uma embalagem, um jornal, um panfleto, etc, num momento em que se precisa realmente deles numa determinada situação de vida. É lendo de verdade, desde o início, que alguém se torna leitor e não aprendendo primeiro a ler. 


Editora Moderna (projeto: Presente!)

segunda-feira, 1 de março de 2010

O canto do galo


Meu pensamento é um devorador de imagens. Quando uma boa imagem me aparece eu rio de felicidade e o meu pensador se põe a brincar com ela como um menino brinca com uma bola. Se me disserem que esse hábito intelectual não é próprio de um filósofo, que filósofos devem se manter dentro dos limites de uma dieta austera de conceitos puros e sem temperos, invoco em minha defesa Albert Camus, que dizia que “só se pensa através de imagens.”
Amo as imagens mas elas me amedrontam. Imagens são entidades incontroláveis que frequentemente produzem associações que o autor não autorizou. Os conceitos, ao contrário, são bem comportados, pássaros engaiolados. As imagens são pássaros em vôo... Dai o seu fascínio e o seu perigo.
Mas eu não consigo resistir à tentação. Assim, vai uma parábola que me apareceu, com todos os riscos que ela implica:
“ Era uma vez um granjeiro que criava galinhas. Era um granjeiro incomum, intelectual e progressista. Estudou administração para que sua granja funcionasse cientificamente. Não satisfeito, fez um doutorado em criação de galinhas. No curso de administração aprendeu que, num negócio, o essencial é a produtividade. O improdutivo dá prejuizo; deve, portanto, ser eliminado.
Aplicado à criação de galinhas esse princípio se traduz assim: galinha que não bota ovo não vale a ração que come. Não pode ocupar espaço no galinheiro. Deve, portanto, ser transformada em cubinhos de caldo de galinha.
Com o propósito de garantir a qualidade total de sua granja o granjeiro estabeleceu um rigoroso sistema de controle da produtividade das suas galinhas. Produtividade de galinhas é um conceito matemático que se obtém dividindo-se o número de ovos botados pela unidade de tempo escolhida. Galinhas cujo índice de produtividade fossem iguais ou superiores a 250 ovos por ano podiam continuar a viver na granja como galinhas poedeiras. O granjeiro estabeleceu, inclusive, um sistema de “mérito galináceo”: as galinhas que botavam mais ovos recebiam mais ração. As galinhas que botavam menos ovos recebiam menos ração. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou inferior a 249 ovos por ano não tinham mérito algum e eram transformadas em cubinhos de caldo de galinha.
Acontece que conviviam, com as galinhas poedeiras, galináceos peculiares que se caracterizavam por um hábito curioso. A intervalos regulares e sem razão aparente, eles esticavam os pescoços, abriam os bicos e emitiam um ruido estridente e, ato contínuo, subiam nas costas das galinhas, seguravam-nas pelas cristas com o bico, e obrigavam-nas a se agachar. Consultados os relatórios de produtividade, verificou o granjeiro que isso era tudo o que os galos - esse era o nome daquelas aves - faziam. Ovos, mesmo, nunca, jamais, em toda a história da granja, qualquer deles havia botado. Lembrou-se o granjeiro, então, das lições que aprendera na escola, e ordenou que todos os galos fossem transformados em cubos de caldo de galinha.
As galinhas continuaram a botar ovos como sempre haviam botado: os números escritos nos relatórios não deixavam margens a dúvidas. Mas uma coisa estranha começou a acontecer. Antes, os ovos eram colocados em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias eles se quebravam e de dentro deles saiam pintinhos vivos. Agora, os ovos das mesmas galinhas, depois de vinte um dias, não quebravam. Ficavam lá, inertes. Deles não saiam pintinhos. E se ali continuassem por muito tempo, estouravam e de dentro deles o que saia era um cheiro de coisa podre. Coisa morta.
Aí o granjeiro científico aprendeu duas coisas:
Primeiro: o que importa não é a quantidade dos ovos; o que importa é o que vai dentro deles. A forma dos ovos é enganosa. Muitos ovos lisinhos por fora são podres por dentro.
Dois: há coisas de valor superior aos ovos, que não podem ser medidas por meio de números. Coisas sem as quais os ovos são coisas mortas.”
Essa parábola é sobre a universidade. As galinhas poedeiras são os docentes. Corrijo-me: docente, não. Porque docente quer dizer “aquele que ensina”. Mas o ensino é, precisamente, uma atividade que não pode ser traduzida em ovos; não pode ser expressa em termos numéricos. A designação correta é pesquisadores isto é, aqueles que produzem artigos e os publicam em revistas internacionais indexadas. Artigos, como os ovos, podem ser contados e computados nas colunas certas dos relatórios. As revistas internacionais indexadas são os ninhos acreditados. Não basta botar ovos. É preciso botá-los nos ninhos acreditados. São os ninhos internacionais, em língua estrangeira, que dão aos ovos a sua dignidade e valor. A comunidade dos produtores de artigos científicos não fala português. Fala inglês.
O resultado da pressão “publish or perish”, bote ovos ou sua cabeça será cortada, a docência termina por perder o sentido. Quem, numa universidade, só ensina, não vale nada. Os alunos passam a ser trambolhos para os pesquisadores: estes, ao invés de se dedicarem à tarefa institucionalmente significativa de botar ovos, são obrigados pela presença de alunos a gastar o seu tempo numa tarefa irrelevante: ensino não pode ser quantificado ( quem disser que o ensino se mede pelo número de horas/aula é um idiota).
O que está em jogo é uma questão de valores, uma decisão sobre as prioridades que devem ordenar a vida universitária: se a primeira prioridade é desenvolver, nos jovens, a capacidade de pensar, ou se é produzir artigos para atender a exigência da comunidade científica internacional de “publish or perish”.
Eu acho que o objetivo das escolas e universidades é contribuir para o bem estar do povo. Por isso, sua tarefa mais importante é desenvolver, nos cidadãos, a capacidade de pensar. Porque é com o pensamento que se faz um povo. Mas isso não pode ser quantificado como se quantificam ovos botados. Sugiro que as nossas universidades, ao avaliar a produtividade dos que trabalham nela, dêem mais atenção ao canto do galo...

Rubem Alves

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Começando uma conversa

Gostaria de ressaltar uma história que ocorreu com índios de seis nações e os Estados Unidos, que assinaram um acordo de paz. Com o acordo foram impostos alguns pontos da educação vivenciada pelos americanos sem que os índios pudessem expor o seu referencial de educação e sua cultura. Para questionar o argumento americano os índios citaram exemplos que aconteceram nas tribos. Muitos dos guerreiros foram submetidos a outro tipo de educação (fora da aldeia), “a educação das ciências”. Quando voltavam das faculdades para as aldeias não se adequavam mais a vida e a cultura, ou melhor, as suas raízes, passavam a ser homens das letras, portanto, esqueciam-se de distinguir o som dos animais, não conseguiam caçar e fazer as habituais tarefas da tribo.
 É notório nesta história que não se faz somente um tipo de educação, que a mesma não se cristaliza em uma cultura ou sala de aula, que não existe um modelo ideal para toda a humanidade e que a escola não é o único lugar onde se educa. Para Vygotsky é através da interação que o aprendizado ocorre, o indivíduo precisa estar no meio social e assim adquirir conhecimentos através de parceiros mais experientes. O aprendizado é uma forma de por em movimento conhecimentos que sem interação social seriam impossíveis.

A educação é dialógica, e não um círculo vicioso